Produções Literárias: Ainda há o que viver | Por Renata Leão

By Ane Venâncio - junho 27, 2018

Imagem por unsplash, sob licença creative commons.

Ela abre os olhos, percebe que ainda está escuro lá fora. Checa no celular o horário. São 4h da manhã. Pragueja o despertar antes da hora.

Em meio ao silêncio e o frio da madrugada de outono, ela para mais uma vez para pensar nas frustrações cotidianas e na última tentativa de namoro que não deu certo.

Procura em cada detalhe motivo ou razão que o fizeram não querer ficar em sua vida. Alguns pensamentos sombrios surgem de novo, ela pensa que é o fim, pensa em sumir.

Deita de lado e passa a mão no lado esquerdo da cama, como se certificasse que ele não está ali ao lado. Desaba. Lágrimas rolam, os soluços são contidos com as mãos. Depois de muito chorar, seca as lágrimas e fala pra si mesma que é a última vez que chora por isso, aliás já faz meses.  Adormeceu.

Acordou, se arrumou e foi para o trabalho sem vontade e sem ânimo, mas foi engolindo o choro, sufocando o grito e a saudade. Passou o dia assim.

A noite chega em casa como se carregasse pesos nos ombros e nos pés. Recolhe os papéis jogados embaixo da porta percebe que são contas e informativos de supermercado.

O gato preto a recebe com miados de fome e abraça a perna da dona que lhe dá o que deseja.

Ela vai para o quarto, deita na cama ainda bagunçada e a frustração volta. Decide tomar um banho quente antes que adormeça suja em sua tristeza.

Após o banho faz um café quente, pega o pacote de biscoito no armário e vai para a varanda do prédio. O gato a segue, como se percebesse que sua dona precisava de companhia.

Ela senta, se aconchega com o gato e ambos olham a cidade, observando as luzes e as pessoas apressadas como se fugissem do frio, do trabalho ou de algo qualquer.

Nesse momento silencioso e contemplativo, ela relembra da pessoa que é, de sua trajetória de vida e de todas as vezes que se reergueu. Se dá conta que a vida é feita de possibilidades, nenhum sofrimento é eterno, não é o fim e ainda há o que viver.

Consegue dá um sorriso tímido, mas esperançoso. Fica mais um tempo apreciando a vista e a companhia do gato. Cochila e decide dormir na cama.

O despertador toca, são 6 horas da manhã, ela pragueja o despertador, mas levanta sem nenhum peso nos ombros e nó na garganta.

Texto produzido por Renata Leão, a partir da proposta do Desafio Criativo de junho, que estimula os autores a criarem uma história a partir da reposta de 7 perguntas sobre suas preferencias em assuntos  preestabelecidos. 


Ilustração do Pascal Campion. 

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3 comentários

  1. Perfeito! Impossível não se ver em vários trechos...

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  2. conforme o cotidiano. reconhece a queda e não desanima, levanta sacode a poeira e dá volta por cima.

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